domingo, 9 de setembro de 2012

O Processo de Industrialização Brasileiro e Seus Reflexos na Indústria Piauiense: o caso da Indústria de Cachaça Orgânica do Médio Parnaíba Piauiense




A indústria é a atividade por meio da qual os seres humanos transformam matéria-prima em produtos semi-acabados ou em produtos acabados. Sua importância é tão grande nos dias atuais que quase tudo o que consumimos e utilizamos é processado ou produzido por ela. Além de oferecer empregos, a indústria produz capital, desenvolve o comercio, os transportes e os serviços, dinamizando a economia.
A origem do processo de industrialização se deu na Inglaterra, durante os séculos XVIII e XIX, e disseminou-se para outros países através da transferência das inovações tecnológicas das então metrópoles para as colônias o que representou o principio da desagregação do sistema imperialista colonial.
Através da analise sobre a evolução histórica do modo de produção industrial, pôde-se reconhecer três estágios mais gerais que são: o artesanato, que corresponde ao estágio em que o produtor executa sozinho todas as fases da produção e até mesmo a comercialização do produto, e isto sem o uso de máquinas, utilizando-se apenas ferramentas simples.
O outro estágio é a manufatura, que corresponde ao estágio em que há uma divisão do trabalho, mas a produção ainda depende fundamentalmente do trabalho manual, embora sejam empregadas algumas maquinas simples. A maquinofatura é o estagio atual, que pode-ser caracterizado pelo emprego maciço de maquinas e fontes de energia modernas, produção em larga escala, e grande divisão e especialização do trabalho.
Do ponto de vista politico-econômico, pode-se dizer que houve três tipos de industrialização: a clássica ou original, a planificada, a tardia ou retardatária. A industrialização tardia é a que nos interessa, pois foi esta que ocorreu no Brasil, e como o nome sugere, foi historicamente atrasada em relação á original, e tem como características a grande quantidade de capital estrangeiro, tem por base o desenvolvimento de indústrias de bens de consumo e utiliza basicamente tecnologia estrangeira.
O processo de industrialização tardia no Brasil teve reflexos no desenvolvimento industrial do Piauí, e discutir esses reflexos consiste no objetivo deste artigo. E para compreender a dinâmica industrial piauiense foi feito um estudo de caso em uma indústria do setor de bebidas que através das análises do sistema de produção foi possível construir uma análise geral sobre a dinâmica da indústria piauiense.


Evolução histórica do processo de industrialização brasileira


Para entendermos como o Brasil chegou a seu estágio industrial e conjuntura econômica, temos que conhecer um pouco do contexto histórico do processo de industrialização do país. Na década de 30 o capitalismo é definitivamente adotado como modelo econômico, firmando-se assim como o principal modelo de produção de riquezas o que possibilitou a livre transformação de matérias – primas em mercadoria, e a crescente especialização do trabalho o que configurou na atual divisão social da sociedade urbano-industrial brasileira.
O crescimento dos mercados e o surgimento de novos produtos instigaram o processo de industrialização, assim no inicio do século XX, a predominância era de indústrias de bens de consumo não-duráveis, compostas por fábricas de tecidos, roupas, alimentos, bebidas e fumo que compunham 70% de acordo com Baer, (2009) de toda a produção industrial brasileira. Dentro deste processo, destacou-se a região Sudeste, que por possuir características econômicas e organizacionais mais desenvolvidas (e isto também é resultado da colonização que desde o inicio já segregava economicamente as regiões brasileiras), tornou-se, portanto o berço da nossa industrialização.
O período pós Segunda Guerra Mundial, foi a época em que a indústria no Brasil deu um grande salto, pois com a crise no mercado externo, no contexto da década de trinta, o pais teve que produzir produtos antes importados e substituir alguns artefatos que já não havia compradores no exterior, como foi o caso do café, à época principal produto de exportação brasileiro.
Como aponta Scarlato, (2003, p 367):

A industrialização brasileira nesse período caracterizou-se por uma explicita intervenção estatal, principalmente por intermédio de investidores nos setores de bens de produção que correspondem à siderurgia, a petroquímica, bens de capital, além da extração mineral e da produção de energia elétrica, E graças a essa intervenção, houve um grande crescimento da produção industrial o que lançou as bases para a consolidação de um parque industrial.

Um outro período marcante da industrialização brasileira é representado pelo governo de Juscelino Kubitschek, onde houve um grande crescimento econômico em consequência da implantação do chamado Plano de Metas. Trava-se de um amplo programa de desenvolvimento que previa investimentos estatais em diversos setores da economia, tornando o Brasil um país atraente aos investimentos estrangeiros. Na execução do plano, os investimentos dirigiram-se aos setores de energia e transportes. Segundo Davidovich e Geiger (1974, p. 121):

Houve um grande aumento da produção de hidroeletricidade e de carvão mineral, que forneceu o impulso inicial no programa nuclear, e elevou a capacidade de prospecção e refino de petróleo, pavimentação e construção de rodovias, além de melhorias nas instalações e serviços portuários, aeroviários e reaparelhamento e construção de ferrovias.

Paralelamente, devido aos investimentos estatais em obras de infra-estrutura, houve um expressivo ingresso do capital estrangeiro, responsável por grande crescimento da produção industrial nos setores automobilísticos, químico-farmacêutico e de eletrodomésticos. O parque industrial brasileiro passou, assim, a contar com significativa produção de bens de consumo duráveis, o que sustentou e deu continuidade á política de substituição de importações.
A política do Plano de Metas foi acompanhada por um significativo aumento da inflação e da divida externa, e além do que, também acentuou a concentração do parque industrial na região sudeste, agravando ainda mais os contrastes regionais e causando implicações serias nas relações socioeconômicas do país.
A inflação acentuou ainda mais no período da ditadura militar, pois embora o parque industrial tenha se consolidado através da constante busca por capital militar, pois embora o parque industrial tenha se consolidado através da constante busca por capital estrangeiro, o que elevou o país na época à 8º maior economia, houve uma crescente divida externa o que reduziu a qualidade de vida da população.
E juntamente com a crise do petróleo, vem o desemprego, a imigração da zona rural para a zona urbana, e conseqüentemente o inchamento das cidades. Só a partir de 1984 a economia volta a crescer, com o PIB atingindo 4,5% e em 1985, passa a 7,4 % e a balança comercial que era deficitária torna-se superavitária. (BRESSER PEREIRA, 1992).

Configurações atuais da indústria brasileira.

Como foi explicitado, a associação de capitais privados nacionais e estrangeiros, com investimentos estatais levou á formação, no Brasil, de um parque industrial que abrange seguimentos industriais de bens de consumo, de produção e de capital.
Contudo o volume de produtos fabricados nas indústrias de bens de capital e de produção é até os dias de hoje, insuficiente para abastecer as necessidades do nosso parque industrial. Consequentemente, ainda é preciso importar máquinas, equipamentos e alguns produtos siderúrgicos especiais não fabricados no país.
Atualmente, a atividade industrial é responsável por mais de 60% do PIB brasileiro. Os setores predominantes são as indústrias siderúrgicas, metalúrgicas, mecânicas, elétricas, química e petroquímica, de veículos, de alimentos e bebidas, têxteis, de confecções, de calçados, de papel e celulose. (IBGE, 2007)
Em conjunto esses setores são responsáveis por mais de 80% do produto industrial do país. Porém vem crescendo bastante os investimentos em indústrias ligadas às novas tecnologias, como robótica, aeronáutica, eletrônica, telecomunicações, mecânica de precisão e biotecnologia. (FURTADO, 1999)
Entre os aspectos positivos da dinâmica atual da indústria brasileira, podemos destacar o potencial de expansão no mercado interno, os aumentos nos volumes das exportações de produtos industrializados, o aumento na produtividade, a melhora da quantidade dos produtos e uma maior dispersão espacial dos estabelecimentos industriais para regiões historicamente marginalizadas, como a s regiões Nordeste e Norte.
Porém a indústria ainda enfrenta vários problemas que aumentam os custos e dificultam uma maior participação no mercado externo como: deficiências e altos preços nos transportes, baixos investimentos públicos e privados em desenvolvimento tecnológico, baixa qualificação da mão de obra e barreiras tarifárias impostas por outros países à importação de produtos brasileiros.

A industrialização piauiense

De acordo com Santana (2003) as primeiras formas de produção industrial surgiram ainda no século XVIII, na cidade de Parnaíba ao norte do estado, com a produção de charque e posteriormente com a exploração de produtos vegetais quem começava a ser exportada para o exterior. Segundo Mendes (2003):

Com o progresso da tecnologia e das formas de produção novas indústrias se instalaram no estado como a de fiação de tecidos (1988), curtume (1993), sal refinado (1908), cerveja, gelo e bebidas gasosas (1912), óleos vegetais (1912 e 1913), mas ainda não representava uma consolidação do processo industrial, pois estes não tinham incentivos fiscais e infraestrutura capazes de atrair indústrias com produtos de valor mais agregado.

                Somente a partir da década dos anos 1970, com os investimentos no setor de energia elétrica, a industrialização no Piauí começa a tomar novos rumos, elevando a participação da indústria na composição do Produto Interno Bruto – PIB de 4,7% em 1965, para 27,3% em 1999(MENDES, 2003).
            Praticamente todo o processo de industrialização se deu na capital do estado, sendo que até o início do século XX, Teresina conservava a marca forte do meio rural, mas destaca Branco (2002) que o poder público já se mostrava preocupado com o seu desenvolvimento econômico, e ofereceu subsídios à iniciativa privada com a finalidade de torná-la economicamente menos dependente.
            Atendendo para este fato foi criado o Distrito Industrial de Teresina, que está localizado na zona sul de Teresina, área inadequada para esta atividade, por estar a montante do ponto de captação de água para abastecimento da população urbana, no rio Parnaíba, o que possibilita a contaminação das águas.
            A situação não é mais grave pelo fato se o setor industrial ainda ser pouco expressivo, favorecendo o controle da poluição. Além disso, grande parte dos lotes do distrito industrial está ocupada por atividades não industriais, como armazenamento e distribuição, minimizando o problema de poluição, mas configurando um uso menos produtivo da área (TERESINA,2002).
            Em Teresina, onde está concentrada a grande maioria das indústrias piauienses, esta atividade, até 1991 era, segundo Pereira Filho (2003), constituídas aproximadamente de 700 unidades, ressaltando maiores destaques para as indústrias de construção civil, bebidas, vestuário, material de transporte, produtos alimentícios e indústria metalúrgica.

CASO DA INSÚSTRIA DE CAHAÇA ORGÂNICA DO MÉDIO PARNAÍBA PIAUIENSE

            Para realização desse artigo escolheu-se trabalhar com a fábrica de bebidas Cachaça Lira, localizada no município de Amarante – PI, possuidor de uma população de 17.892 habitantes, sendo o município pertencente à microrregião geográfica do Médio Parnaíba Piauiense (IBGE, 2007).
            A escolha dessa indústria se deve, primeiramente por entender que esta exerce um papel fundamental na economia do município e também porque representa uma das mais completas fábricas de bebidas destiladas do Piauí, com uma linha de produção completa, incluindo desde a produção da cachaça de alambique a outros produtos agropecuários, além de sua política interna que presa pela sustentabilidade ambiental e pela geração de emprego e renda para a população local.
               A área territorial do Sítio Floresta é de 250 hectares, porém, apenas 15% desse total são utilizados pela empresa para uso agropecuário, os 85% restantes estão contidos na política de preservação ambiental da empresa. Isso demonstra a preocupação dos gestores pela busca da sustentabilidade através de ações concretas de preservação dos recursos naturais do ambiente local.
                 Relativo ao sistema produtivo e as formas da produção da Cachaça Lira, eles ocorrem através de um processo que integra a tradição, pois em suas instalações há a presença de um engenho centenário instalado as margens do riacho Mulato, com a evolução das novas tecnologias representadas pelos alambiques de cobre que integram o sistema produtivo da empresa.
               
Como explica Haroldo Lira (Agrônomo da empresa):
“Nosso produto é resultado de um processo que associa a tradição dos antigos engenhos com a evolução das novas tecnologias. O cuidado se dá em todo processo. A cana é plantada em lavoura orgânica, a colheita é feita da forma manual e o sistema de irrigação é tradicional. O apuro artesanal faz com que a levedura da cachaça se já preservada e traga também benefícios para saúde”
           
            No tocante da matéria-prima, ou seja, a cana-de-açúcar ela é produzida dentro do próprio sítio, que possui características geoecológicas que favorece a produção, pois possui um clima tropical subúmido seco (classificação de Thornthwaite), com médias de precipitações anuais de 1400 mm; solos do tipo: argissolos vermelho-amarelo, associações de latossolos vermelho-amarelos e afloramentos rochosos; além de grande intensidade de vegetação de floresta mista subcaducifólia, vegetação cerrado arbóreo-arbustiva e transição cerrado/caatinga que facilitam o desenvolvimento de plantios de espécies com necessidades hídricas elevadas (AQUIAR,2004).
            Como já relatado o plantio e manejo da cana-de-açúcar, se dá sem aditivos químicos e agrotóxicos. Sendo que a cana é colhida manualmente sem a prática da queimada, e posteriormente passa por uma seleção e limpeza e por fim é moída nas primeiras vinte e quatro horas após a colheita.
            Com o caldo da cana pronto, ela passa agora por um processo de decantação para eliminar impurezas advindas do campo e do próprio maquinário, em seguida, é prosseguido para dornas de aço inox, onde será fermentado por leveduras alcoólicas das linhagens (Sacharomyces Cerevisiae) autóctones do próprio sítio.
            O vinho da cana é destilado em alambique de cobre e somente é aproveitado o coração do destilado (cerca de 15% do vinho da cana). A cabeça e a calda são descartadas por conter metanol, ácidos voláteis, aldeídos e alcoóis superiores altamente prejudiciais à saúde.
            Após o processo de destilação, a Lira é bombeada sem contato manual para tonéis de madeira da espécie Castanheira (madeira considerada o “carvalho” brasileiro) de 700 litros, onde permanece por um período mínimo de 12 meses. O resultado final do envelhecimento da Lira é o aprimoramento das características do sabor, aroma, brilho, maciez e cor.
            Os resíduos produzidos pela produção da cachaça são destinados para outros setores e outras atividades desenvolvidas pela empresa, que correspondem à criação de animais e a adubação de outras culturas agrícolas. Dentre os resíduos o mais prejudicial à saúde é o vinhoto que é resultado da fermentação da sacarose.
            Tendo em vista a potencialidade poluidora desse subproduto a empresa desenvolveu outro sistema produtivo paralelo e complementar a produção da cachaça, que corresponde à produção de álcool combustível através da destilação do vinhoto, sendo que o combustível é utilizado nos automóveis da empresa o que reforça mais ainda o caráter sustentável da política interna promovida pela empresa.
            O Piauí assim como o Brasil, e principalmente as regiões Norte e Nordeste tiveram um processo de industrialização tardio e acanhado. E como reflexo disso o Piauí tem suas atividades industriais baseadas no extrativismo de produtos primários, caracterizando-se como uma região de agroindústrias que não consegue produzir e acumular riquezas para investir em infraestrutura, modernização da economia e conseguintemente um pleno desenvolvimento industrial. E constituindo ainda como agravante que dificulta um efetivo progresso industrial é a situação da desigualdade regional e nacional em que se coloca a indústria do Piauí, pois o fato de suas atividades industriais ainda estarem pautadas na extração de produtos primários, aliada a grande concentração de renda e da propriedade privada, caracterizada pelo uso tradicional da terra com práticas de pecuária extensiva e culturas de subsistência, inviabilizam a atração de investimentos dos agentes que promovem o desenvolvimento industrial. Porém há iniciativas que promovem um avanço na economia piauiense, como é o caso da referente empresa, que foi tomada como estudo de caso, pois alia suas vantagens e potencialidades o investimento em infraestrutura e tecnologias sem esquecer a sustentabilidade ambiental e seu papel social, o que mostra uma realidade nova no cenário industrial do Piauí.

REFERÊNCIAS

AGUIAR,Robério Bôto de.Projeto cadastro de fontes de abastecimento por água subterrânea,estado do Piauí:diagnóstico do município de Amarante/Organização do texto[por]Roberto Bôto de Aguiar[e]José Roberto de Carvalho.Gomes,Fortaleza:CPRM-Serviço geológico do Brasil.
BAER,Werner.A economia brasileira.Tradução deEdite Sciulli.3. Ed.rev.e atual.São Paulo.Nobel,2009.
BRANCO, P. V. C. Desejos, tramas e impasses da modernização (Teresina 1900-1930). In: Scientia et Spes/Revista do Instituto Camilo filho, vol. 1, nº2, Teresina: ICF, 2002. p. 294-314.
BRESSER PEREIRA,Luís.Economia brasileira:uma introdução crítica.10 ed.Brasiliense.São Paulo,1992.
DAVIDOVICH, F & GEIGER, P.P.Reflexões sobre a evolução da estrutura espacial do Brasil sob efeito da industrialização.Revista brasileira de Geografia,Rio de Janeio.IBGE,1974,ano36,n.3,p.3-29.
MENDES, F. Economia e desenvolvimento do Piauí. Teresina: Fundação Monsenhor Chaves, 2003.
PEREIRA FILHO, F. Indústria teresinense: aspectos da qualidade e da competitividade. In: Carta Cepro. Teresina; v.22; n.2; julho-dezembro 2003.

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