terça-feira, 7 de junho de 2011

AMARANTE: UM GRANDE MOMENTO NA CONFIGURAÇÃO TERRITORIAL DO PIAUÍ

Este texto, foi produzido na disciplina de Organização Espacial do Piauí e mostra um importante momento da história de Amarante, no contexto da configuração territorial do Piauí, neste texto é possível evidenciar a principal atividade produtiva que deu importância econômica da cidade para o Estado do Piauí e bem como os processos que levaram à decadência. Portanto boa leitura!!!!  
Em reflexões sobre a construção do espaço geográfico do Piauí é inerente discutir que as configurações territoriais de um determinado período são resultantes da interação de um conjunto de fatores endógenos, mas, sobretudo a fatores exógenos que modificam o próprio lugar, gerando novos fenômenos e dinâmicas que criam ou recriam condições sociais, portanto redefinem a significação de cada lugar. Atentando a este fato, é preciso compreender que em muitos contextos as origens e a história inicial do Piauí se prendem a fatos e a realidades externas como: a expansão dos engenhos e das fazendas de criação, a motivos militares, às dificuldades na navegação da costa, à crise do açúcar e entre outros motivos. E é este enfoque que norteia a construção deste texto que consiste em compreender e representar a formação territorial piauiense no período correspondente ao século XVII e a primeira metade do século XX através do entendimento dos reflexos históricos sobre o espaço.
Para compreender o processo de formação territorial do Piauí, é preciso antes de tudo entender o panorama econômico do Brasil no século XVII, pois é a partir dessa temporalidade que a base espacial do Piauí começa realmente a se configurar. O século XVII é caracteristicamente marcado pelo predomínio da economia açucareira no Nordeste e sendo esta atividade econômica altamente rentável, levou ao aumento da demanda de carne, como artigo de consumo, e do boi como animal de tiro.
A atividade criatória que num primeiro momento se desenvolveu na faixa litorânea, dentro dos próprios engenhos e atendia as necessidades destes no que se refere à força motriz e suprimento interno de carne. Num segundo momento, tornou-se incompatível, pois logo se evidenciou os problemas advindos da atividade criatória dentro das terras disponibilizáveis para o cultivo da cana.
Em virtude disso a atividade criatória teve que expandir-se para o interior nordestino e com essa interiorização as terras do Piauí são ocupadas e chegam aqui os primeiros ocupantes que não encontraram bases sólidas para garantir a sobrevivência e elevação do nível de vida na faixa litorânea e que aqui ao chegarem instalam as primeiras fazendas de gado ao longo dos vales dos rios, sobretudo no vale do rio Canindé (ver Mapa I). Assim o início da configuração territorial piauiense foi todo definido pela atividade criatória, que diferentemente do que ocorria na faixa litorânea, aqui a pecuária tornou-se a atividade econômica básica e a mais dinâmica.

        A criação de gado no Piauí foi feita de forma extensiva, isto é, o gado era criado solto nos campos sem a utilização de técnicas adequadas de criação, com baixo investimento de capital e baixa remuneração do fator trabalho. Daí porque as fazendas ocupavam imensas extensões de terras, pois estas iam se expandindo à medida que o gado avançava.

Mapa – 1 - Configuração Territorial no século XVII
O objeto de estudo geográfico consiste nas Fazendas e no Vaqueiro que é o elemento cultural do espaço em construção.


A pecuária piauiense vista no âmbito da dinâmica da economia colonial, isto é, dependente dos mercados consumidores externos (Bahia, Pernambuco, Maranhão, Minas Gerais, dentre outros) naturalmente estava sujeita a crises que ocorressem nestes mercados. Tendo em vista esse fato o avanço da atividade criatória para o norte do território piauiense, sendo ainda através dos vales dos rios no século XVIII, tornou os núcleos produtores cada vez mais distantes dos centros consumidores o que tornava os produtos da pecuária menos rentáveis e que combinado com reduzido mercado interno, devido à rarefação da população, e a própria crise que passava a colônia e notadamente a crise açucareira e posteriormente a redução do poder de rentabilidade do mercado de Minas Gerais, criou uma economia essencialmente de subsistência e estagnada que perdurou praticamente todo o século XVIII.
     Vale ressaltar também, importantes marcos na configuração territorial do Piauí que correspondem ao surgimento da Vila da Mocha (Oeiras) em 1717 (ver mapa 2), que elevada à categoria de cidade representou a centralização do poder e deu suporte para a expansão do povoamento que culminou com a emancipação territorial do Piauí da capitania do Maranhão criando assim uma nova individualidade Territorial.

Mapa – 2 – Configuração Territorial do século XVIII
Neste contexto o início da centralização do poder e das decisões pela cidade de Oeiras, torna possível a progressiva individualização territorial e política da capitania do Piauí.


A crise da economia nordestina e das atividades produtivas em Minas Gerais, e juntamente com novos contextos econômicos a nível global, deslocou para o Centro-Sul o eixo dinâmico da economia brasileira. Com isso, a pecuária piauiense envereda num contínuo e prolongado processo de decadência, marcado principalmente pela descapitalização cada vez maior das fazendas e o aprofundamento das relações pré-capitalistas.
No início do século XIX a pecuária ainda é a primeira fonte de riqueza no Piauí, mais ainda não tem potencial para mudar o caráter de subsistência da economia. Entretanto um novo contexto na dinâmica econômica do Brasil que é representado pelo renascimento da agricultura, notadamente a agricultura de exportação, desencadeou um novo fluxo só que agora do interior para o litoral. O Piauí não se integrará nesse movimento, mas dele participará, embora em  pequena escala.
No que se refere à produção agrícola no Piauí Colonial, este setor possuía pouca expressividade. Entretanto com o aumento populacional e a organização de alguns centros urbanos, criou-se um incipiente mercado consumidor interno o que exigiu uma maior oferta de produção agrícola de subsistência e para fazer face a essa nova realidade, se fez necessário utilizar a parte da receita obtida com a venda do gado na compra de gêneros alimentícios.
Para se fazer uma análise da agricultura piauiense no período colonial, primeiramente é preciso levar em conta a questão ecológica e a prioridade dada à pecuária. Todavia, é necessário que se dê ênfase à questão da extrema concentração de terras que se iniciou exatamente com o povoamento, onde as grandes propriedades se dedicavam a criação extensiva de gado e, portanto relegava a agricultura a um segundo plano.

       A produção de gêneros agrícolas normalmente era feita em pequenas propriedades, e sítios ao longo das margens dos rios e, sobretudo na região da cidade de Parnaíba que com a riqueza produzida pela exportação do algodão do Maranhão deu suporte para a produção do algodão piauiense que se produzia nas margens do Rio Parnaíba. A cultura do algodão teve um grande aumento de rentabilidade, sendo os maiores produtores as cidades de Teresina, (então capital da província), São Gonçalo (Amarante), União, e Parnaíba (ver Mapa – 3) que com o porto representava a saída da produção para os mercados internacionais, o que fez o Piauí entrar na divisão internacional do Trabalho.

Mapa – 3 – Configuração Territorial do século XIX
Com a atividade pecuária estagnada e o algodão tendo inicialmente bons rendimentos o eixo econômico do Piauí migrou para a região norte do Estado tornando-a mais dinâmica no contexto do século XIX.

O Piauí continuará exportando algodão, em estado bruto ou em pluma, tanto para a Inglaterra como para as manufaturas do Sul do país. Entretanto, outro produto assumirá o primeiro plano, de modo a permanecer o Estado participando do comércio mundial. Trata-se da borracha.
O início do século XX é marcado pela produção das atividades extrativistas. A primeira a se destacar foi a extração do látex da Maninçoba para a produção da borracha, que apesar da devastação praticada nas matas pelos que se dedicavam a sua extração, apresentava-se como uma das principais fontes de receitas, que possibilitou o fomento de melhorias na infra-estrutura dos principais centros urbanos produtores e distribuidores da produção, como Teresina que a partir do lucro da atividade possibilitou inicializar o serviço de distribuição de água e energia.
A produção de borracha de maniçoba foi o elemento inicial da expansão de municípios como: Canto do Buriti, São Raimundo Nonato e Simplício Mendes. E também reorientou e deslocou centros comerciais, como o caso de Floriano que ganhou uma dinâmica econômica que fez mudar as principais firmas do comércio do município de Amarante que perdeu sua projeção devido à queda da cultura do algodão.
Já no final da primeira década do século XX, a rentabilidade da borracha decaiu, e o Estado se viu necessário a utilizar uma outra atividade que pudesse substituir os rendimentos da borracha de Maninçoba. Essa atividade seria a extração da cera de Carnaúba, que já em 1911 ocupava o segundo lugar na ordem de importância dos produtos exportados.
Por causa do incipiente desenvolvimento industrial do País, a comercialização da cera se mantinha dependente das oscilações do mercado internacional. Isso é bem visível quando se analisa a destinação das exportações onde antes da primeira guerra mundial, a Alemanha era a principal comprador e logo depois com o fim da primeira guerra e posteriormente da segunda grande guerra os Estados Unidos absorveram a maior parte da produção para exportação. Um outro produto extrativista que ganhou projeção nesse contexto histórico foi o Babaçu, mais como a exemplo da cera, o babaçu teve um ápice mais logo depois decrescia a atividade em virtude de uma situação desfavorável do comércio mundial e pelo incipiente desenvolvimento industrial brasileiro.
Em 1950, a população piauiense alcançava mais de 1 milhão de habitantes, sendo os principais aglomerados urbanos as cidades de Teresina, Parnaíba e Floriano. Neste contexto 82,2% da população ativa dedicavam-se ao setor primário, 3,7% ao setor secundário e 14,1% aos serviços. Refletindo sobre essa distribuição dos setores produtivos é possível evidenciar a dependência do território aos produtos manufaturados importados tendo em vista que a maior parcela da economia está inserida no setor primário.
Com a queda da rentabilidade dos produtos extrativistas o Estado se viu obrigado a intensificar as suas relações com os demais Estados nordestinos, mas para isso era preciso investir nas vias internas objetivando ligar os principais centros urbanos. Os investimentos públicos federais em rodovias beneficiaram Teresina, então a maior aglomeração urbana e para onde convergem as principais vias, o que a tornou na principal economia de mercado do Piauí assegurando um maior fluxo de renda na região norte do que em relação a outras regiões do Estado, ampliando assim, as desigualdades regionais. Vale ressaltar também, que com a abertura da economia estadual, cidades como Floriano, Campo Maior e Picos, (ver Mapa 4) ganham importância como centros comerciais.

Mapa – 4 – Configuração Territorial (1900 – 1960)


Com o campo em permanente crise e um setor industrial incipiente, resta ao setor terciário o comando da economia do Estado. Em virtude disso a década de 60 é marcada pela expansão do setor terciário e a reafirmação do papel que cabia ao Estado, dentro da divisão regional do trabalho, sendo ele um exportador de matérias primas, importador de bens transformados e dependente de transferências federais.
O exposto acima é suficiente para caracterizar o território piauiense que desde o início da sua formação até os anos de 1960, os fatores externos têm uma predominância maior na configuração do Espaço e isso pode ser apontado como o principal motivo para a dependência externa e conseqüentemente para a dependência das transferências econômicas da União.
Refletindo sobre o que foi exposto, é possível deduzir que a construção do território piauiense pode ser compreendida através da interpretação de que ele é resultante de um conjunto de interações entre os elementos endógenos e exógenos, sendo que os elementos exógenos permitem ações que modificam a dinâmica territorial, gerando assim novas configurações espaciais e condições sociais que, portanto redefinem a significação do território. Na configuração territorial piauiense da primeira metade do século XX, marcado pela dinâmica capitalista e pela divisão social do trabalho e da riqueza as atividades econômicas são cada vez mais artificiais e mais fixados ao solo, ou seja, cada vez mais são implantadas conjunturas espaciais que são adversas à naturalidade do território piauiense o que gera fenômenos e formas espaciais as mais diversas.

    Outro ponto importante para refletir é que na formação territorial do Piauí as condições naturais influenciaram bastante nas formas de uso e ocupação destinadas a esse território. Não tendo aqui uma visão determinista da natureza sobre o espaço trabalhado pelo homem, paradigma este já há muito superado pela ciência geográfica, e nem tão pouco dotar à sociedade local de uma separação total da natureza com a produção e reprodução dos agentes e formas espaciais empreendidas pela ação antrópica, é inerente para se conhecer a real evolução do Espaço entender o Piauí como um reflexo das condições naturais mais também como um espaço condicionado pelas ações e estratégias da sociedade capitalista.


REFERÊNCIAS UTILIZADAS                                                                                                           



FUNDAÇÃO CENTRO DE PESQUISAS ECONÔMICAS E SOCIAIS DO PIAUÍ. Piauí: evolução, realidade e desenvolvimento. Agenor Martins... [et ali] 3. Ed., ver. – Teresina: Fundação Cepro, 2003.
SANTANA, R. N. M. de. Evolução histórica da economia piauiense. 2. Ed. Academia Piauiense de Letras – Banco do Nordeste. Teresina, 2001.
SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo. Razão e Emoção. 4. Ed. 1. Reimpr. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004. (Coleção Milton Santos).

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